domingo, 30 de setembro de 2012

Ensinamento


Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


 Adélia Prado

sábado, 29 de setembro de 2012

Ganhei um lindo poema...

 
As Estrelas de Maria
 
De Minas veio Maria,
Trazia na bagagem um punhado de estrelas
Camufladas em palavras
 
E essas palavras contavam histórias
Que só Maria sabia e podia contar:
Histórias do povo de Maria
Que em Maria revivia...
 
 
Um dia as histórias viraram livro,
Para alegria dos que sabiam ler
As palavras de Maria
Mas poucos podiam ver,
 
Escondidas nessas palavras,
As estrelas que vieram na bagagem,
Na humilde e luminosamente mineira
Bagagem de Maria...
 
Deodato Rivera

Este poema foi um presente de Deodato Rivera no dia do lançamento do meu livro "Dicionário de Lembranças"


[1] Poema de Deodato Rivera para o lançamento de meu livro “Dicionário de Lembranças” em 1998.

Dicionário de Lembranças

 Meu primeiro livro publicado
Capa e prefácio: Ziraldo
Orelha: Cairo Trindade
Depoimentos: Luana Malagamba, Denise Gusmçao e Deodato Rivera.
 
É composto de 14 contos inspirados nas lembranças do que vivi na minha terra, o Córrego dos Januários, Inhapim - MG. Com capa e prefácio de Ziraldo e orelha de Cairo Trindade, este livro tem me dado grandes alegrias.
 

Editora Contemporânea

Livros em que tenho textos publicados.

O livro Poesia, Crônica  e conto Aqui (Gang Edições), organizado pela Oficina de Literatura Cairo Trindade, foi onde eu publiquei meu primeiro texto literário, a crônica Amor de viajante.

Oficina de Literatura Cairo Trindade® 1997
AUTORES: Pedro Lage, Milton Aguiar, Letícia Vianna, Flávia Fagundes Telles, Sheila Salles, Marco Muniz, Laura Esteves, Vany Fortunato, Margarida Studart, Thereza Barcellos, Flávio Cordeiro, Beatriz Sodré, Cristina Saba, Carmine Bottino, Marina Bartholo, Mario Vinícius Anuzza, Diogo Ramires, Regina Vieira, Andrea Bertola de Gouveia, Judith Oliveira, Lucia Helena Teixeira, Amado Portela, Helmari Junior, Eduardo Hunter Moura, Maria de Lourdes Souza, Ricardo Rabêlo, Cristiane Britto, Denizis Trindade.
 
ORELHA: Nei Leandro de Castro
CAPA: Luciana Chagasteles
 
 
Oficina de Literatura Cairo Trindade® 1998
AUTORES: Sady Bianchin, Sheila Salles, Laura Esteves, José Moreno, Beatriz Sodré, Letícia Viana, Regina Vieira, Flávia Fagundes Telles, Mario Annuza, Thereza Barcellos, Judith Oliveira, Marcelo Peres, Amado Portela, Maria de Lourdes Souza, Eduardo Hunter, Mollie Ivy Burrel, Maria Amélia Ribeiro, Noemy Titan, Denise Sollami, Eunilson de Andrade, Claudia Diniz, Fabio Ximenes, Regina Reis, Moacyr Cruz, Elizabeth Palhares, Paulo Meilihzon, Criastiane Britto, Mônada Guimarães, Daniel de Assis Trindade.
 
ORELHA: Ary Vasconcelos
CAPA: José Moreno
 

Oficina de Literatura Cairo Trindade® 2000
AUTORES: Ana Claudia Calomeni, Antonio Carlos Farias, Beatriz Barata, Beatriz Vita , Colbert Hilgenberg, Clau-dia Rosenblatt, Denizis Trindade, Elisa Flores, Felipe Castro, Flávia Ribas, Gizane Moreira Campos, Juliana Guimarães, Laura Esteves, Luciana Chagasteles, M. André, Marcos Sebastião dos Santos, Maria de Lourdes Souza, Maria Judith de Oliveira, Mauricio Carneiro, Mollie Ivy Burrell, Otto Kohlreusch, Regina Vieira, Roberto Tabacow, Tania Barboza, Valdelita Lima Soriano, Waldemar Zusman.
ORELHA: Luíz Horácio (crítico literário)
CAPA: Luciana Chagasteles

Oficina de Literatura Cairo Trindade® 2003
AUTORES: Adriana Monteiro de Barros, Adriana Nascimento, Alice Vasconcelos, Amado Portela, Ana Claudia Calomeni, Ana Flores, Ana Teresa Coelho, Antonio Carlos Farias, Antonio Gutman, Armando Carvalho, Beatriz Barata, Beatriz Sodré, Colbert Hilgenberg, Daniel Trindade, Elida Escaciota, Elisa Flores, Elvé Monteiro de Castro, Felipe de Almeida, Fernado Sá, Gladis Lacerda, Heloisa Igreja, Hernani Bottega, Isabel Sued, Israel Drash, Luiz Pinheiro do Vale, Marco Aurélio Correa Lima, Marcos Sebastião dos Santos, Maria de Lourdes Souza, Maria Fortini, Mauro Henrique Sales, Mauricio Carneiro, Mollie Ivy Burrel, Pedro Lage, Regina Vieira, Rosa Born, Roseny Seixas, Roberto Tabacow, Selma Gaertner, Silvio Ribeiro de Castro, Valdelita Soriano, Vany Fortunato, Wallace Figueiredo, Wanda Brauer, Wilmann Costa.
 
ORELHA: Marcus Vinicius PREFÁCIO: Cairo Trindade
CAPA: Edmilson Sartori

Textos publicados no jornal Plástico Bolha

O massacre e Pátria de Negro, dois textos meus publicados no jornal Plástico Bolha.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

FELICIDADES - um passeio à beira-mar


Para tia Fiinha, In memoriam
e Luana

 
Eu caminhava a passos largos pela Avenida Delfim Moreira. O mar estava calmo, o sol pleno. Eu que venho de lugar humilde. Longe de ter, sequer, semelhança com a agitada orla marítima carioca. Onde se misturam pessoas de todo lugar, com múltiplas idéias, sonhos diversos. Nesse caminhar sem destino, me peguei pensando na vida.

*

Certa vez, lá pras bandas do interior mineiro, Dona Felícia, uma sertaneja que já trazia consigo as marcas de uma longa história cercada de lutas, vivia sua rotina. Acordar cedo, fazer o café que era todo fruto de seu trabalho, daqueles que cheiram à longa distância. Preparar a broa de milho. Você sabe como se faz a broa de milho? É fácil, mas tem seus segredos.

Naquele dia, eu a observava de longe, como num conto de fadas.
 
Acordou cedo. Percebi, porque a fumaça vagarosamente começou a fugir pela chaminé, num caminho traçado pelo vento, entre a noite e o breve amanhecer. Instantes depois, o cheiro do café, e daí a pouco a janela se abria para ver o sol nascer. Se é que querem saber, o sol naquele lugar era o mais lindo que já pude ver. Lá naquelas terras, que lhe pertenciam por amor e cumplicidade, tinha de tudo que se imaginasse. Desde árvores enormes a ramagens rasteiras. Ali, tudo lhe era de serventia. Quando o sol já havia se levantado, ela foi até o quintal, chamou todos os animais de sua estimada criação. Alimentou-os com sobras de comida, milho, restos de frutas. Era uma festa só, e Dona Felícia parecia sentir-se entre os anjos. Enquanto se fartavam do saboroso banquete, ela foi até a cozinha e de lá saiu com uma xícara na mão e um prato de quitutes. Sentou-se no último degrau da escada que descia até o quintal e também fez sua refeição matinal. Era a calma em pessoa.

Eu, por um instante, deixei minhas observações e fui até o fogão apanhar meu café. Me dei conta de que minha mãe já cuidava da limpeza da casa e não tardaria a preparar o almoço. Ali mesmo, na cozinha, tomei o leite de cabra. Quando acabei, voltei ao meu observatório. Dona Felícia já não estava mais na escada e eu tive que procurá-la. Momentos depois pude vê-la. O pano surrado amarrado à cabeça para proteger do sol e da poeira, enxada a postos e uma cumbuca d’água na mão. Ela cantava e ia cuidando da terra, sua menina dos olhos. O marido e os filhos estavam na lida, no outro lado da roça.

Durante algumas horas, eu tive que esquecer Dona Felícia e ir para a escola. Quando voltei, fui visitá-la.
- Boa tarde, Dona Felícia.
- Boa tarde, Juliana.

Ela continuou seu trabalho. Percebi que já tinha roupas estendidas no varal, todas alvas e cheirosas. Ela me pediu que apanhasse uma caneca d’água na cozinha, pois a cumbuca já estava vazia. Eu fui. Quando entrei, vi a casa limpa e a comida pronta no canto do fogão à lenha. Este permanecia aquecido pelo braseiro que se formara. Não me demorei.

Agora, ela estava sentada à sombra de uma velha mangueira. Dei-lhe a água e, sem cerimônia, comecei a perguntar:

- Dona Felícia, a senhora nasceu aqui?
- Nasci e vivi nesse pedaço de chão.
- Tem vontade de morar noutro lugar?
- Acho que não.
- Já foi numa cidade grande?
- Belo Horizonte.
- Quantos anos a senhora tem?
- Mais de sessenta.

Tantas perguntas seguidas pareciam não incomodá-la.
- Do que a senhora mais gosta?
- De cuidar do meu marido, dos meus fios e desse meu pedacinho de chão.

Vi que havia muitas frutas amontoadas às margens da estrada.
- Por que a senhora pega essas frutas e deixa na beira do caminho?
- Ah, Juliana. Aqui tem fruta que não acaba mais! De modo que eu pego as que tá madura e ponho aí. As criança, quando vem da escola, apanha e come. Minhas fruta num estraga e a meninada gosta. Uma delas costuma dizê que as fruta é doce feito melado.
- Quem te deu todas essas coisas?
- Foi Deus, Nosso Sinhô.
- A senhora sabe muita coisa?
- Num sei nada, minha menina! O que sei aprindi na vida, com o tempo.
- A senhora sabe ler?
- Sei assiná meu nome.
- Por que a senhora não pede pra Seu Luiz fazer uma casa nova? Essa tá muito velhinha. Parece que quer cair.
- Nem pensá, minha fia. Eu tenho medo de dismanchá essa tapera que foi de minha vó, e minha alegria morrê com ela. Minha irmã dismanchô a casa véia, feiz uma casa nova e eu  acho, cá pra mim, que a felicidade dela morreu de tristeza.
- Mas, Dona Felícia, felicidade não morre!
- Minina Juliana, a felicidade pra mim é que nem um passarinho. Se ela posar na sua janela, ocê dé de comê pra ela, tomá conta dela, passado uns tempo, tá que nem um vivero. Uma felicidade chama a outra e vai assim toda vida. Mas se ocê num cuidá, ela vem um dia, faia dois. Vem notro dia e faia treis. Até que cansa e vai simbora. Eu sempre fui feliz aqui, com as coisa que tenho. Eu fiz o meu vivero. Vorta-e-meia aparece um fiotinho novo da tal de felicidade. Quando ocê crescê pode tê um que nem o meu. É só tê carinho e amô no coração.

*

Nessa hora, um Tempra passou riscando o asfalto. Foi quando me dei conta de que já estava na Vieira Souto, perto do Arpoador. Parei, bebi uma água de coco. Deixei a alma fartar-se de doces lembranças. Olhei mais uma vez pro mar e voltei pra casa.

 

Maria de Lourdes Souza
(Do meu livro "Dicionário de Lembranças" - Ed. Contemporânea, 1998)